terça-feira, 10 de novembro de 2015
Eu juro que é por amor
Sabe, mãe, eu estou com medo. Medo de dizer que preferiria te ver partir. São três anos e quatro meses em que não ouço mais a sua voz fininha a chamar Thaís, que não discordamos, que não concordamos. Que você não faz mais churrasquinho pra Luiza nem a protege de alguma enrascada que ela se meteu. Sem falar da carne enroladinha, do nhoque, de todas as coisas que me ensinou apesar da nossa gritante diferença de geração e opiniões. Você faz tanta falta que nem tem ideia. Uma saudade que corta e, pra mim, vê-la assim é sofrimento. Principalmente o seu, porque sei que você sofre, que você tem dor, enfim, que não é legal estar do jeito que está. Mas ao mesmo tempo, sinto que você quer ficar como se tivesse algo pra viver, pra ver...Tento compreender as razões que levam alguém que foi sempre tão bacana, tão boa, ter que passar por todo esse processo antes de partir. Porque você vai partir e, desde o dia 8 de julho, espero o telefone tocar. Uma angústia que aumenta a cada internação, a cada infecção que já debilita o seu frágil corpo. Mais remédios, mais expectativas, mais angústias. Porque mesmo melhor, você não irá melhorar; eu sei; todos sabemos. Essa noite eu mal consegui dormir e chorei muito pedindo a Deus que a reconfortasse, que trouxesse alívio para sua alma, seu coração. Tem gente que me julga, sabe? Acha que sou egoísta e fria. E eu só queria resolver o seu problema (você sabe que eu tenho a mania de querer resolver os problemas de todo mundo, menos os meus, né?). Eu lembro que quando ia com você às reuniões do Neuróticos Anônimos, duas coisas sempre me chamaram a atenção: a Oração da Serenidade, que sempre achei belíssima, e o lema Só por Hoje, que tenho tentando colocar em prática desde o seu AVC. Tem sido difícil para todos, mãe. E imagino que muito mais para você, se desgarrar da gente. Você vai fazer falta, aliás, já faz. Mas acho que chega e eu já conversei com você sobre isso. Vai ficar tudo bem, te juro. É duro demais e, se eu tivesse um poder, seria tirar com as minhas mãos esse tudo isso que você vem pensando. Perdão pelas minhas ausências, mas cada um lida de um jeito. Mas acho que tá na hora, aliás, passou da hora. E eu dou minhas broncas em Deus, assim como você fazia. Desculpa, mãe, só que a única coisa que eu sinto por você é amor e é por amor que eu desejo que você vá. Te amo.
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