sábado, 28 de dezembro de 2013
Meu coração odeia matemática
Devo confessar: estou triste. E a tristeza, que juro não combinar comigo, tem sido uma constante nos últimos tempos. Não que tudo seja ruim, isso nunca. Há sempre os bons e deliciosos motivos para a alegria e me aposso deles a cada instante, seja em pensamentos seja em atitudes. Eu gosto da felicidade, da risada, da piada, da tirada engraçada. Mas há um quê de tristeza rondando minha vida e é essa parte que eu não gosto, que eu preferiria não existir. A parte chata da minha vida tem nome: relacionamentos. 39 anos, alguns namoros, dois casamentos, algumas histórias. Sempre erradas, sempre. Retomo sensações ruins repetidas vezes. Deixo pessoas erradas entrarem pela porta e saírem sem um tchau, uma explicação. Viram pó de pimenta, mas deixam o gosto mais amargo que se pode imaginar. Um deles, levou uma mala minha, novinha. Eu não sei me relacionar? Eu sou chata demais? Eu tenho bafo? Não acredito naquela teoria ridícula de que sou o tipo de mulher que os homens temem. Aquele papo de independência, blá blá blá. Não ponho medo em ninguém, não. Talvez eu seja o tipo de mulher que os homens não queiram. Veja bem, alguns eu também não quis e outros mandei embora. Naquela bom: não rolou. E alguns eu dei graças a Deus por desaparecerem. Mas todos os que eu quis que ficassem, se foram. Por algum motivo que eu ainda não sei. Eu sempre quis casar. Sempre. Tive dois casamentos. O primeiro acabou muito pela minha imaturidade, em achar que podia tudo, que sabia tudo. O segundo acabou porque nem deveria ter começado, pra ser bem sincera e hoje tenho muita clareza quanto a isso. Mas, de fato, eu nunca me casei no sentido de querer ficar com alguém a vida toda. Talvez, nesse tempo todo, eu nunca tenha amado. Me apaixonado, sim. E é incrível que, quando eu penso em dar o pé na bunda e não o faço por absoluta preguiça de confronto, eu levo um que me joga pro chão. E aí eu fico mal, me faço de vítima, o drama da mulher abandonada. Tudo errado, claaaaaaaaaaaaro. No plano racional a gente sabe tudo e acha que conhece tudo. Experimentei recentemente algo bem louco: ou ele bloqueou meu número ou então trocou o chip pra não ter mais contato comigo. E não, não tínhamos brigados. E aliás, ele havia pedido uma nova chance e perdão (!!) por umas pisadas de bola. O que eu, claro, aceitei e acreditei e já tava toda felizinha imaginando que eu ia me mudar pro Nordeste quando a aposentadoria chegasse. Sim, eu faço planos com todos e eles são ambiciosos. O roteiro perfeito nessa minha cabeça louca. Mas os planos são meus, veja bem. Fazer um plano a dois, por exemplo: viajar pro Rio no final de semana ou planejar férias na Europa, isso não. Isso é o tipo de coisa que nunca me aconteceu apesar de eu querer isso como uma skol na praia. E quem me conhece sabe do meu apreço por uma cerveja gelada num dia de sol à beira mar. Problema de autoestima? Ah, eu tenho alguns e todo mundo também tem, só que não sou o tipo de mulher encanada e convivo bem com meus defeitos. Não acho meu corpo lá muito bonito, mas gosto das minhas pernas e dos meus pés. Eu ficaria comigo se fosse homem, resumindo. Mas ainda não sei o que pega. E porque pega. Talvez meu destino seja virar uma solteirona? Ficar sozinha? Chegamos a um dilema: eu não quero isso. Eu quero gostar. Eu gosto de agradar, de cuidar, de tratar bem. Gosto do gosto de gostar e poder ser boa para alguém. Não que eu não faça isso. Trato todo mundo bem. No entanto, queria ter um pra me dedicar. Outro dia fiquei pensando (porque eu penso muito e analiso e revejo e reavalio) e cheguei a uma conclusão: a minha relação com os sentimentos é como lido com os números. Sou péssima, mal sei fazer divisão com dois números sem a ajuda da calculadora (minha mãe ficava horrorizada). Então, eu acho que é isso: meu coração não sabe fazer contas!
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Aqui na terra (ainda) tão jogando futebol!
Hoje eu fui te ver e, infelizmente, você não sorriu pra mim como fez a pouca vida inteira que passamos juntos. Sentada, em frente àquela janela, ouvi passarinhos e a arara que parecia muito brava. Dei uma folheada no jornal que peguei sem ninguém perceber no térreo. Pouco mais de meia hora ali e toda uma vida passando pela minha cabeça. O nosso passado, o meu presente e o tal do futuro.
Não sei se você tem noção, mas vou fazer 40 anos e tô cheia de cabelo branco. Também tenho uma filha de 11 anos e, pasme, já me casei e separei duas vezes. Fui te ver, mesmo sabendo que você não estava lá, pra pedir ajuda. As coisas andam meio complicadas do lado de cá e pensei que talvez você pudesse me ajudar. Embora eu saiba que você esteja por perto, aprovando ou reprovando tudo, que seja, sempre falta.
E por diversas vezes eu me remeto àquele seis de outubro lá em 1986.
Posso dizer, com detalhes, tudo o que aconteceu. Tudo como foi. Eu ainda estava de uniforme do Liceu e usava um tênis vermelho. Sei precisar cada minuto daquela cena e, se fosse roteirista, esse filme seria perfeito. Lembro da disposição dos móveis, de você chegando cambaleando, todo suado, dizendo que não estava se sentindo bem e indo por quarto. Da mãe desesperada, pegando uma toalha e querendo te levar pro médico. Lembro até daquela empregada que a gente tinha que só usava vestido de meia-calça de renda porque gostava de "andar social". Lembro das ligações, das pessoas, em especial a uma amiga da mãe, a Thereza, meus irmãos chegando e do médico que apareceu na sala e disse:
- Ele não resistiu.
Corri pro prédio vizinho, pra casa da Cris. Toquei a campanhia, a tia Judith abriu e eu disse:
- Meu pai morreu.
Ali eu fiquei, por ali eu dormi, e depois ficou tudo nebuloso. Com seu velório, seu enterro (que eu fiquei no carro, aliás). Não vi você morto porque eu vi você morrendo na minha frente e isso já foi duro demais. Demorei anos pra ir te ver no cemitério. Já estava na faculdade quando isso aconteceu.
Mas não se assuste com o tom melancólico desse post. A imagem que eu tenho de você é de alegria. De quando eu, mesmo grande, sentava em seu colo na poltrona da sala, e te chamava de gordão. Das idas ao sindicato dos petroleiros. Dos passeios pelo Centro. Das fitas K-7 que você gravava pra nossas viagens.
Enfim. Foram 12 intensos anos.
Já já vamos nos despedir de mais um pedaço dessa história, pois a casa do Marapé está vazia. Mais uma parte da minha história que fica pra trás. Não sei se você a viu por essas bandas daí, mas a Valéria se foi em abril. A mãe? Foi guerreira e continua sendo. A baixinha não se rendeu a uma doença grave, mas a gente nem sabe direito em que mundo ela está. A Cristina continua o centro da família, a mais responsável, a mais centrada. O Junior tem a vida dele. Ele também tem um filho, o Cassio, um menino de ouro que será jornalista como a madrinha. É, eu me formei em Jornalismo em 1995. Ah, tem ainda a Mariana, sua neta mais velha, filha da Valéria. Uma moça linda de 22 anos e que hoje vive com a mãe e a Cristina.
Eu sei, foram muitas notícias e você tem muito o que assimilar. Mas é que faz muito tempo que não falamos e eu precisava te contar como anda a minha vida, como andam as coisas. Prometo que serei mais assídua de agora em diante. A chegada dos 40 deixa a gente mais reflexivo e faz a gente rever conceitos. Não é só com você que estou em falta, pai.
Beijos, te amo
Não sei se você tem noção, mas vou fazer 40 anos e tô cheia de cabelo branco. Também tenho uma filha de 11 anos e, pasme, já me casei e separei duas vezes. Fui te ver, mesmo sabendo que você não estava lá, pra pedir ajuda. As coisas andam meio complicadas do lado de cá e pensei que talvez você pudesse me ajudar. Embora eu saiba que você esteja por perto, aprovando ou reprovando tudo, que seja, sempre falta.
E por diversas vezes eu me remeto àquele seis de outubro lá em 1986.
Posso dizer, com detalhes, tudo o que aconteceu. Tudo como foi. Eu ainda estava de uniforme do Liceu e usava um tênis vermelho. Sei precisar cada minuto daquela cena e, se fosse roteirista, esse filme seria perfeito. Lembro da disposição dos móveis, de você chegando cambaleando, todo suado, dizendo que não estava se sentindo bem e indo por quarto. Da mãe desesperada, pegando uma toalha e querendo te levar pro médico. Lembro até daquela empregada que a gente tinha que só usava vestido de meia-calça de renda porque gostava de "andar social". Lembro das ligações, das pessoas, em especial a uma amiga da mãe, a Thereza, meus irmãos chegando e do médico que apareceu na sala e disse:
- Ele não resistiu.
Corri pro prédio vizinho, pra casa da Cris. Toquei a campanhia, a tia Judith abriu e eu disse:
- Meu pai morreu.
Ali eu fiquei, por ali eu dormi, e depois ficou tudo nebuloso. Com seu velório, seu enterro (que eu fiquei no carro, aliás). Não vi você morto porque eu vi você morrendo na minha frente e isso já foi duro demais. Demorei anos pra ir te ver no cemitério. Já estava na faculdade quando isso aconteceu.
Mas não se assuste com o tom melancólico desse post. A imagem que eu tenho de você é de alegria. De quando eu, mesmo grande, sentava em seu colo na poltrona da sala, e te chamava de gordão. Das idas ao sindicato dos petroleiros. Dos passeios pelo Centro. Das fitas K-7 que você gravava pra nossas viagens.
Enfim. Foram 12 intensos anos.
Já já vamos nos despedir de mais um pedaço dessa história, pois a casa do Marapé está vazia. Mais uma parte da minha história que fica pra trás. Não sei se você a viu por essas bandas daí, mas a Valéria se foi em abril. A mãe? Foi guerreira e continua sendo. A baixinha não se rendeu a uma doença grave, mas a gente nem sabe direito em que mundo ela está. A Cristina continua o centro da família, a mais responsável, a mais centrada. O Junior tem a vida dele. Ele também tem um filho, o Cassio, um menino de ouro que será jornalista como a madrinha. É, eu me formei em Jornalismo em 1995. Ah, tem ainda a Mariana, sua neta mais velha, filha da Valéria. Uma moça linda de 22 anos e que hoje vive com a mãe e a Cristina.
Eu sei, foram muitas notícias e você tem muito o que assimilar. Mas é que faz muito tempo que não falamos e eu precisava te contar como anda a minha vida, como andam as coisas. Prometo que serei mais assídua de agora em diante. A chegada dos 40 deixa a gente mais reflexivo e faz a gente rever conceitos. Não é só com você que estou em falta, pai.
Beijos, te amo
terça-feira, 3 de setembro de 2013
A volta
Então era você quem tanto esperei? Eu nunca estive na Colômbia, mas encontrá-lo
naquele quarto, naquela casa que parecia algum monumento histórico,
foi mágico. Eu me virei e você estava lá, do mesmo jeito. Vestia uma blusa azul e me
abraçou como nunca havia feito antes. Vi sua mãe, que sorriu ao me
ver. E no outro take já estávamos caminhando por aquelas ruas, nos
tocando, imaginando como seria mais tarde. Sim, iríamos para
Cartagena, mas não sem antes ver um colombiano que era muito
legal e que, por alguma razão, nós conhecíamos do Brasil, ser
assassinado ali, na nossa frente. Ainda assim, sentíamos paz.
Porque eu sabia que você estava de mãos dadas comigo naquele sonho.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Aeroporto
Ah as malas. Que mania eu tenho de carregar, além das minhas, as dos outros. E olha que nem tanta força assim eu tenho. Mas de um tempo pra cá, essa tarefa que antes era de uma certa forma tranquila, tem exigido muito de mim. Estou, sinceramente, cansada. E ainda assim eu não me sinto em condições de simplesmente abandoná-las. Medo, posse, sei lá. Apego, por si só, já é algo ruim. Ainda mais pelas malas alheias... E se eu pegar um avião? Quem sabe eu tenha sorte de ter a bagagem extraviada? Vai ser a primeira vez que vou sair do desembarque feliz, por terem sumido com as minhas malas...
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