Era uma noite típica de verão e, refrescados pelo vento gelado do ar-condicionado, discutiam os caminhos da humanidade entre uma rodada e outra de Brahma. No tradicional bar do Centro de Santos, resolviam em poucos minutos o futuro da nação. Não era para menos, afinal de contas, entre eles havia um Senador. Em seu lugar marcado à mesa do meio, dava opiniões, indicava soluções, fazia discursos e saía satisfeito, na condição de político respeitado. Encenava tão bem seu papel, que a moça com sotaque, recém-integrada ao grupo, acreditou estar diante de um autêntico representante do Senado Federal. Meio sem jeito, chegou em seu ouvido pedindo conselhos de como ingressar na vida pública. Tinha grandes pretensões, queria ser nada menos que prefeita de sua cidade.
- Quero tirar os mendingos da rua e colocar na calçada, repetia ela o slogan pra lá de sem graça.
Com seu sarcasmo habitual, sugeriu que ela começasse por baixo, tentando primeiro um cargo na Câmara de Vereadores de seu município.
- Comece devagar, consiga uma boa verba para investir na campanha. E aí você vai ganhando experiência e vira deputada estadual, federal... e depois, quem sabe, prefeita.
Ela ouvia atentamente as considerações do nobre político, que gesticulava e usava palavras capazes de confundir qualquer desavisado.
Em determinada hora da conversa, não se aguentando mais de curiosidade, virou para o senador e, numa quase inocência, perguntou:
- Como é lá?
- Lá onde?, ele devolveu.
- No Senado, em Brasília. Como é lá, o seu trabalho.
- Não querida, não sou senador. É só um apelido, os caras me chamam assim.
- É que eu achei que você fosse senador de verdade, disse ela, em um visível desapontamento .
- Mas eu sou senador. Até que provem o contrário, eu sou. Não é pessoal?
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Culpada é a mãe
Tem aquela propaganda que diz que quando um filho nasce, nasce também uma mãe. Acrescento que além disso nasce uma árvore dentro da gente, com raiz, tronco, caule, folhas e flores chamada culpa. Sim, porque sentimos culpa por tudo o que acontece com nossos filhos. De um tombo que poderia ter sido evitado a uma febre no sábado à noite. Mães são culpadas pelo sofrimento de seus filhos. Engraçado é que dificilmente nos damos conta que somos culpadas também pelos momentos felizes. E quando você é separada, então, a culpa negativa dobra. Porque você decide sozinho como vai ser. Onde vocês vão, o que a criança vai comer, vestir. E muitas vezes de uma escolha boba, acontece alguma coisa ruim. Quando o pai está por perto dá para dividir esse sofrimento já que tudo foi baseado no "nós". Não que ele assuma, porque a culpa que você sente já está dentro de você e não existe ninguém capaz de tirá-la. O que quero dizer é que fica menos pesado.
Mas quando se é sozinho isso não acontece e muitas vezes o sujeito fica sabendo o que aconteceu e ainda solta: mas por que você foi fazer isso? Isso sem contar a família, sempre com o dedo na sua cara. Não importa a boa mãe que você é nem o que você faz para o seu filho ser feliz. Uma virose e uma febre derrubam todo o resto. "Também, fica levando a menina naquela praia". Sim, eu levei a minha filha naquela praia. Ela teve um dia feliz, riu, brincou. Porque se não fosse na praia, seria no shopping, no horto, na puta que pariu. Não vou criar minha flha na bolha. Não vou. Não foi nada tão sério para tanto alvoroço. E se fosse sério eu assumiria, estaria onde fosse preciso, pegando na mão dela. Faz parte do que é ser mãe. No caso, foi só uma virose. Algumas crises de vômitos, diarreia e pronto, acabou.
Ela está bem-cuidada, assistida, medicada. A culpa é minha por ela ter ficado assim? É. Eu assumo. Mas assumo também a culpa pelo dia feliz que ela teve naquele sábado de praia. Sou culpada ainda pelos vários sorrisos lindos que ela me dá todos os dias.
Mas quando se é sozinho isso não acontece e muitas vezes o sujeito fica sabendo o que aconteceu e ainda solta: mas por que você foi fazer isso? Isso sem contar a família, sempre com o dedo na sua cara. Não importa a boa mãe que você é nem o que você faz para o seu filho ser feliz. Uma virose e uma febre derrubam todo o resto. "Também, fica levando a menina naquela praia". Sim, eu levei a minha filha naquela praia. Ela teve um dia feliz, riu, brincou. Porque se não fosse na praia, seria no shopping, no horto, na puta que pariu. Não vou criar minha flha na bolha. Não vou. Não foi nada tão sério para tanto alvoroço. E se fosse sério eu assumiria, estaria onde fosse preciso, pegando na mão dela. Faz parte do que é ser mãe. No caso, foi só uma virose. Algumas crises de vômitos, diarreia e pronto, acabou.
Ela está bem-cuidada, assistida, medicada. A culpa é minha por ela ter ficado assim? É. Eu assumo. Mas assumo também a culpa pelo dia feliz que ela teve naquele sábado de praia. Sou culpada ainda pelos vários sorrisos lindos que ela me dá todos os dias.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Começar de novo
Você esquece o quanto é difícil dizer para uma pessoa aquilo o que ela não quer ouvir. De tão acostumada a escutar tchaus, de tanto vivenciar sumiços, não pensa que acabar com uma história é tão complicado. Porque você quer ser maduro e adulto e dizer o que te deixa insatisfeito e isso, obrigatoriamente, atinge seu ouvinte. Você precisa falar e resgatar aquele dia lá longe em que ele fez uma coisa que você não gostou muito, mas que foi mais uma gota que caiu no copo já cheio. Você explica que não se sente mais cuidada, amparada e que o jeito dele está displicente demais e que a última vez ele te fez em elogio foi em outubro do ano passado e pelo MSN. “Esqueci de te dizer, mas aquele dia você tava linda”. Isso porque em uma tarde – que ele provavelmente nem lembra -, falou que nunca conheceu ninguém como você. Magoa o outro (não que seja com intenção), pois está magoada, ferida e decidiu encarar a verdade. Não dá mais para fingir que está tudo bem porque simplesmente não está. Você passa mais tempo ansiosa do que calma. Porque ele simplesmente deixou de fazer o que fazia antes; coisas bobas, mas que te deixam no vácuo. Você para de fazer planos a longo prazo e começa com os de médio, só para não se frustrar. Até que chega uma hora em que nem no dia seguinte você sabe como vai ser, se vai ser. Não, não dá para ter uma história a dois assim, indo, levando. Pelo menos você não sabe viver desse modo. E se nem todo sentimento disfarçado em chocolate foi capaz, nada mais é. É duro chegar para alguém e falar que ele não foi suficientemente bom para o que você queria ou pensava, que ele não foi o cara que disse que seria. Você, com muita certeza, também não foi a mulher daquele início. E essas pessoas de agora não agradam mais um ao outro. Talvez o jeito de gostar dele seja assim, do tipo que não combina com o seu. Talvez ele tenha se distanciado de propósito, vai saber, esperando você ter coragem de fazer algo que ele também pretendia. De qualquer forma, você deu o primeiro passo.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Em ordem
Fazia tempo que ele não a visitava. Alguns meses desde o último encontro, que, ela acha, aconteceu no inverno. E justo hoje ele resolveu aparecer. Chegou numa hora imprópria, mas não teve muito jeito; acabou abrindo a porta, apesar da tentativa de não deixá-lo entrar. Ignorou telefonemas, o interfone. Em um momento de distração, atendeu a campanhia. Deu um sorriso sem graça e o convidou para tomar um café. Minutos depois ele já deitava em sua cama e fazia graça da sua vida.
- Que decisões você tem tomado, hein moça?
Ouviu um conselho que só mesmo ele podia dar:
_ Fique assim mesmo, não reaja. A vida é melhor quando você não faz nada e espera ela passar. De preferência sentada.
Respeitando o velho companheiro, pensou em seguir suas palavras, afinal, qual era mesmo o propósito de tudo isso que vinha fazendo, que vinha vivendo? Estava quase entrando na dele, contaminando-se com seu jeito conformado de ser. Foi quando o telefone tocou e do outro lado um amigo contava uma piada boba, que a fez cair na gargalhada.
- Era exatamente disso o que eu precisava agora, rir muito. Estou recebendo uma visita chata que insiste em ficar e fazer com que eu me sinta meio assim, no vazio agudo, aquele que Paulo Leminski descreveu certa vez.
- Quem tá aí? Põe a vassoura atrás da porta. Não deixa, você é maior do que isso e pode se livrar dessa criatura.
Pegou sua piaçava e, minutos depois, o “amigo-tédio” ia embora contrariado por não ter conseguido se instalar. Assim que ele saiu, foi pro computador tuitar e ouvir a nova música do R.E.M., It Happened Today. Já sem se sentir entediada e sorrindo cada vez mais decidiu dormir porque o dia seguinte seria puxado. Finalmente havia encontrado um instalador de ar-condicionado e uma faxineira pra colocar sua casa em ordem. Tudo ia voltando, pouco a pouco, para o seu devido lugar.
- Que decisões você tem tomado, hein moça?
Ouviu um conselho que só mesmo ele podia dar:
_ Fique assim mesmo, não reaja. A vida é melhor quando você não faz nada e espera ela passar. De preferência sentada.
Respeitando o velho companheiro, pensou em seguir suas palavras, afinal, qual era mesmo o propósito de tudo isso que vinha fazendo, que vinha vivendo? Estava quase entrando na dele, contaminando-se com seu jeito conformado de ser. Foi quando o telefone tocou e do outro lado um amigo contava uma piada boba, que a fez cair na gargalhada.
- Era exatamente disso o que eu precisava agora, rir muito. Estou recebendo uma visita chata que insiste em ficar e fazer com que eu me sinta meio assim, no vazio agudo, aquele que Paulo Leminski descreveu certa vez.
- Quem tá aí? Põe a vassoura atrás da porta. Não deixa, você é maior do que isso e pode se livrar dessa criatura.
Pegou sua piaçava e, minutos depois, o “amigo-tédio” ia embora contrariado por não ter conseguido se instalar. Assim que ele saiu, foi pro computador tuitar e ouvir a nova música do R.E.M., It Happened Today. Já sem se sentir entediada e sorrindo cada vez mais decidiu dormir porque o dia seguinte seria puxado. Finalmente havia encontrado um instalador de ar-condicionado e uma faxineira pra colocar sua casa em ordem. Tudo ia voltando, pouco a pouco, para o seu devido lugar.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Por você
Eu sempre achei que paixões fossem paixões e que acontecessem no olhar, na hora, no instante. Comigo foi assim a vida toda. Até que eu o conheci. No começo eu não entendi muito bem aquela presença e o que era nossa relação. Apaixonada, definitivamente, eu não estava. Nada de frio na barriga, nada de borboletas, nada. Tudo calmo, tranquilo. O tempo passou e, de repente, acordei apaixonada. Demorou uns quatro meses até que minha ficha caísse, até que eu entendesse que paixões nem sempre são avassaladoras e que muitas vezes elas trazem o efeito contrário: o da calma. Cada dia ele me surpreende com alguma coisa diferente, com um gesto, uma besteira, como o dia em que me deu envelopes com jogos da Mega-sena. Cada dia eu aprendo, entendo. Tolerância, resiliência, paciência. Nem sempre consigo, devo admitir. Tem dias que eu chuto baldes, falo e faço besteira, e acabo escutando: tá tudo bem, é assim mesmo, faz parte, fica tranquila. Eu sei que ele gosta muito de mim. Mas o melhor de tudo isso é saber que posso gostar dele exatamente do jeito que eu gosto, do jeito que eu posso, preciso e consigo.
domingo, 2 de janeiro de 2011
Ensaio
Engraçado isso. Desde o dia que o conheci já tenho ensaiado todo o fim. Listo na minha cabeça os motivos e, conforme o tempo passa, consigo acrescentar mais itens; o último aconteceu naquela manhã em que ele acordou, se levantou e foi tomar banho. Mesmo me vendo acordada, foi incapaz de me dar um bom dia, um abraço. Com a minha cara amarrada e já no carro, ele tentou contato, me esquivei fingindo dormir, protegida pelas lentes enormes dos meus óculos de sol. Segundos depois, lá estava ele nos conduzindo aos nossos trabalhos pelo caminho mais longo, aquele em que vamos conversando, contemplando os prédios novos, as pessoas e os motoristas que só fazem barbeiragens. Nem percebi a hora mas quando me dei conta já estava rindo das suas bobagens e aceitando sua mão na minha perna e o convite para comer pastel. E é assim, fazendo listas, inventando diálogos, dizendo tchaus imaginários e tentando racionalizar sentimentos, que me emociono e gosto mais e mais dele.
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