segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Em ordem

Fazia tempo que ele não a visitava. Alguns meses desde o último encontro, que, ela acha, aconteceu no inverno. E justo hoje ele resolveu aparecer. Chegou numa hora imprópria, mas não teve muito jeito; acabou abrindo a porta, apesar da tentativa de não deixá-lo entrar. Ignorou telefonemas, o interfone. Em um momento de distração, atendeu a campanhia. Deu um sorriso sem graça e o convidou para tomar um café. Minutos depois ele já deitava em sua cama e fazia graça da sua vida.
- Que decisões você tem tomado, hein moça?
Ouviu um conselho que só mesmo ele podia dar:
_ Fique assim mesmo, não reaja. A vida é melhor quando você não faz nada e espera ela passar. De preferência sentada.
Respeitando o velho companheiro, pensou em seguir suas palavras, afinal, qual era mesmo o propósito de tudo isso que vinha fazendo, que vinha vivendo? Estava quase entrando na dele, contaminando-se com seu jeito conformado de ser. Foi quando o telefone tocou e do outro lado um amigo contava uma piada boba, que a fez cair na gargalhada.
- Era exatamente disso o que eu precisava agora, rir muito. Estou recebendo uma visita chata que insiste em ficar e fazer com que eu me sinta meio assim, no vazio agudo, aquele que Paulo Leminski descreveu certa vez.
- Quem tá aí? Põe a vassoura atrás da porta. Não deixa, você é maior do que isso e pode se livrar dessa criatura.
Pegou sua piaçava e, minutos depois, o “amigo-tédio” ia embora contrariado por não ter conseguido se instalar. Assim que ele saiu, foi pro computador tuitar e ouvir a nova música do R.E.M., It Happened Today. Já sem se sentir entediada e sorrindo cada vez mais decidiu dormir porque o dia seguinte seria puxado. Finalmente havia encontrado um instalador de ar-condicionado e uma faxineira pra colocar sua casa em ordem. Tudo ia voltando, pouco a pouco, para o seu devido lugar.

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