terça-feira, 20 de setembro de 2016
Dona dos seus ideais
O dia que a morte me rondou pela primeira vez eu nem sabia direito o que ela traria. Só sei que ela levou meu pai, numa manhã de outubro, e que demorei muito tempo para entender, de fato, o que isso significava. A falta da presença física, do contato, da risada, do cheiro. Tudo isso tinha que virar lembrança, se possível boa, de um tempo curto de permanência. Anos se passaram e sempre soube que a morte chegava. Chegou pro meu avô anos depois, para conhecidos da família e até para o Gugu, o vizinho que se foi precocemente em um acidente de carro. Levo meu tio Carlos, minha madrinha Idalina... Com isso, passei entender e aceitá-la. Até o dia que a morte não chegou para a minha mãe. São quatro anos e dois meses que ela está por perto dela. Mas não sei por qual motivo, não entra, não fica à vontade no corpo que já não aguenta mais tanto sofrimento. Já conversei com ela - a morte, pedindo a caridade de fazê-la descansar, já expliquei pra minha mãe que está tudo bem com sua partida, já implorei a Deus, de joelho, que estancasse logo essa dor. Talvez meu idioma e minhas palavras não sejam compreendidos. Não fui atendida, não obtive resposta. E nesse meio tempo em que a morte não veio, ele surgiu, do nada, e levou minha irmã mais velha e meu único irmão. Estou perdida com a desordem da morte. Porque às vezes ela chega resoluta e tira, num sopetão, quem amamos. Às vezes não. Ela fica ali, te encarando em silêncio, numa soberba irritante. Dona de si, do seu tempo, a morte, quando não chega, também pode revoltar.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
De boa na lagoa
Dizem que o diabo mora nos detalhes. Discordo. É o amor que está lá, em cada pequena coisa, em cada pequeno gesto. A mesa do café da manhã improvisada na bacia com o misto quente mais gostoso que já comi. Tinha mais do que presunto, muçarela e requeijão; tinha afeto, tinha carinho. Tantas descobertas nesses dias maravilhosos e perfeitos... E na perfeição tão nossa do final de semana, os planos não pararam de surgir. Começamos em São Roque, passamos por Embu e chegamos a Buenos Aires no feriado prolongado. Temos muitas viagens e risadas pelo caminho. Paixão que, como você diz, logo vai se transformar.
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Mina
O dia estava encoberto, mas o sol se arriscava tímido e eram 14 horas. Não, essa história não merece o clichê de quem não sabe como começar um texto e lança mão das condições climáticas ou mesmo da hora para fazer sentido ou dar contexto. Nem muito menos é o Lead jornalístico que precisa responder as tradicionais perguntas: o que, quando, como, onde, porque.. Eu só sei que aquela hora que vi você saindo do carro e indo para o meio da rua, eu queria dizer: não, cuidado! Mas olhei os dois lados e vi que o caminho estava livre para o primeiro abraço acontecer. Senti seu cheiro, sua mão na minha cintura e, não fosse o perigo de um atropelamento, era ali que eu gostaria de ficar aquela quarta-feira. Seguimos nosso 7 de setembro para o desconhecido. Papos infinitos no assento macio do carro, no banco de madeira do bonde aberto, na cadeira ao lado de uma parede de concreto aparente do restaurante, na cadeira vermelha da calçada... Sim, lembro de tudo. Do sol que brilhou forte - e aqui cabe a licença poética de citá-lo - enquanto o que eu mais queria era te dar um beijo na ida para algum lugar ou de quando o horizonte pintou de rosa o mar na nossa primeira foto. Só uma semana que tudo isso aconteceu. Apenas uma, das infinitas que quero contar ao seu lado.
Assinar:
Comentários (Atom)