terça-feira, 4 de novembro de 2014

Desabafo

E depois de chorar tudo, tudo, tudo o que estava engasgado até então, ouviu, como há muito não ouvia, as batidas do próprio coração. Era o sinal de que estava finalmente viva.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Ausência

Porque de todas as ausências a daquele dia foi a mais sentida. Por instantes intermináveis nos perdemos e não sabíamos mais quem éramos, o que acreditávamos ser real, o que sentíamos. De uma hora para outra, fomos parar num labirinto de pensamentos confusos e desconexos e, desnorteados, procuramos pela saída. Aquela que deixaria tudo como antes e traria a paz que encontramos e estabelecemos como nossa. Foi tanta saudade que fez doer e fez chorar e fez escurecer o que era para ser um dia com a mais completa felicidade. E hoje, quando esse dia triste já havia acabado, rimos e sorrimos juntos, ainda meio acanhados, por quase nos perdermos em devaneios sem o menor sentido. Ao percebermos nossas vozes calmas e que a agonia tinha ficado lá atrás, tivemos a certeza de que não queremos sentir nunca mais o gosto amargo das incertezas.


Outubro/2010

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Diferentes quereres


Tem aquele momento em que o ideal nos bate à porta. Entra, senta-se à vontade e permanece. De alguma forma, você quer quer vire pra sempre. Que o café da manhã feito com tanto afeto e carinho não fique apenas em uma xícara nem no pão fresquinho com cream chesse. Dentro daquele mundo, lavar a louça parece um programa divertido e para ser repetido em looping infinito depois de almoços gourmets regados a bons vinhos, boas cervejas e boa música. Você pisca os olhos, cai em si e é preciso passar tinta no cabelo, tirar a sujeira de cocô de passarinho que pode queimar a lataria do carro e esquecer de tudo aquilo. A pergunta que escutou na saída (você gosta de mim?) e o até mais tarde procedido de um beijo na boca não fazem mais sentido. São seis da tarde, as lembranças diminuem e a impressão é que nada mais sustenta o que foi aquilo. Cai, frágil, como as contas das pulseiras que estouraram no chão do banheiro. Embora o mesmo horizonte, um jeito diferente de enxergar as coisas. Outras perspectivas de tudo. Não seria impedimento nem tampouco ruim. Não fosse um detalhe: o querer.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Estrada

Pensar no passo
Nunca foi rotina
Sempre fui
De sair andando
Mas agora
Quero te seguir
Penso nos passos
Penso em você

Dia 25/02/2013. A pisciana voltou.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Bússola

Outro texto achado no e-mail. De 2007.

Quando a secretária disse, "doutor, tem um Sedex para o senhor", ele ficou assustado. O que seria, afinal? Ainda mais porque ele desconhecia o remetente. Olhou novamente o destinatário e o nome batia. Foi abrir assustado.
Embrulhada em um papel-manteiga, uma bússola. Com a seguinte carta:

"Caro A,

Espero sinceramente que você se encontre. Que pare um pouco, que deixe para trás os relacionamentos que não acrescentam, que não fomentam, que não mexem. Que você escolha um lado para seguir e siga, sem se importar com nada ou ninguém, apenas com o seu conturbado coração. Não adianta tapar buracos com relações desgastantes, perder seu tempo com mulheres nada a ver só para curar uma história que não foi para frente. Também não adiantam os encontros comigo nas madrugadas, nos dias solitários, me mandar mensagens indecifráveis nas sextas e sábados, e nas segundas nunca atender a meus telefonemas. Eu torço muito por você e quero sua felicidade, mais do que você possa imaginar. Mas muito mais do que querer sua felicidade eu quero a minha. E este presente foi a forma de me despedir desta história. Faz um ano e oito meses que a gente sai junto. Faz muito tempo que você diz as mesmas coisas, que você usa as mesmas desculpas para as mesmas coisas. Devo confessar que aquela sexta-feira, de todas as vezes em que ficamos juntos, foi a mais especial. Nós rimos, nós conversamos e nos entendemos de uma forma que nunca tinha acontecido. Mas eu não quero isso para mim. Porque no sábado eu pensei demais em você. E no domingo também e eu te mandei uma mensagem, com todo meu coração e, claro, você ignorou. Porque o que você me dá é pouco. Muito aquém do que quero, do que preciso. Estou fugindo. Porque eu comprei duas bússolas. E o meu caminho eu quero muito seguir.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Achado

Limpar e-mails faz bem. A gente encontra algumas palavras perdidas. Essas são de 2009.


Sonhos. Eu tive sonhos. Acordada. Dormindo. Com a gente andando de mãos
dadas. Com a gente. Mas de uma hora para outra, como mágica, eu não
consigo mais sonhar. Com a gente. Gente. Palavra que não habita mais meus sonhos. Que não transita mais no meu mundo real. Agora sou eu. Agora é você. Assim, longe.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O dia em que virei senhora

Tudo ia bem até este dia. Tinha 33 anos e ia deixar minha filha na escola, no Canal 1. Quando passava pela padaria Roxy, um carro ia saindo. Ao nos ver, o condutor bonitão disse: pode ir senhora. Aquele senhora ecoou durante alguns dias. Como assim um bonitão que deveria ter a minha idade me chamou de senhora. EU, UMA SENHORA? Talvez tenha sido um sinal de respeito por eu estar com uma criança, mas talvez tenha sido porque ele me achou, realmente, uma senhora. De lá pra cá foram várias as vezes em que me chamaram de senhora e agora, confesso, nem ligo mais. Enquanto escrevo lembro de um dia que, no almoço, falei que era jovem e minha mãe disse: você não é mais jovem, você é uma mulher adulta com uma filha. E era verdade e, já nessa época, abandonei os curtos quando saía com a Luiza. Hoje, ser chamada de senhora e dona Thaís não mais me incomodam. E algumas vezes até gosto, pois cria um distanciamento necessário. Daqui a exatos 30 dias farei 40 anos. Serei de fato e de direito uma senhora. Ser senhora, e demorei para entender, não é o mesmo que ser velha. Porque velha, apesar de cronologicamente eu me transformar, eu nunca serei. Nem velha, nem jovem. E graças ao bom Deus e ao amadurecimento, não tenho mais cabeça de jovem. Porque jovem e ser jovem cansa, sejamos verdadeiro. Eu estou mais pra cansada, no meio da jornada. Então, daqui a 40 anos e, espero estar lúcida e bem para continuar escrevendo e contar tudo, serei uma senhora de 80. Torcendo para ser (só) um pouco diferente da senhora de hoje.