Hoje eu fui te ver e, infelizmente, você não sorriu pra mim como fez a pouca vida inteira que passamos juntos. Sentada, em frente àquela janela, ouvi passarinhos e a arara que parecia muito brava. Dei uma folheada no jornal que peguei sem ninguém perceber no térreo. Pouco mais de meia hora ali e toda uma vida passando pela minha cabeça. O nosso passado, o meu presente e o tal do futuro.
Não sei se você tem noção, mas vou fazer 40 anos e tô cheia de cabelo branco. Também tenho uma filha de 11 anos e, pasme, já me casei e separei duas vezes. Fui te ver, mesmo sabendo que você não estava lá, pra pedir ajuda. As coisas andam meio complicadas do lado de cá e pensei que talvez você pudesse me ajudar. Embora eu saiba que você esteja por perto, aprovando ou reprovando tudo, que seja, sempre falta.
E por diversas vezes eu me remeto àquele seis de outubro lá em 1986.
Posso dizer, com detalhes, tudo o que aconteceu. Tudo como foi. Eu ainda estava de uniforme do Liceu e usava um tênis vermelho. Sei precisar cada minuto daquela cena e, se fosse roteirista, esse filme seria perfeito. Lembro da disposição dos móveis, de você chegando cambaleando, todo suado, dizendo que não estava se sentindo bem e indo por quarto. Da mãe desesperada, pegando uma toalha e querendo te levar pro médico. Lembro até daquela empregada que a gente tinha que só usava vestido de meia-calça de renda porque gostava de "andar social". Lembro das ligações, das pessoas, em especial a uma amiga da mãe, a Thereza, meus irmãos chegando e do médico que apareceu na sala e disse:
- Ele não resistiu.
Corri pro prédio vizinho, pra casa da Cris. Toquei a campanhia, a tia Judith abriu e eu disse:
- Meu pai morreu.
Ali eu fiquei, por ali eu dormi, e depois ficou tudo nebuloso. Com seu velório, seu enterro (que eu fiquei no carro, aliás). Não vi você morto porque eu vi você morrendo na minha frente e isso já foi duro demais. Demorei anos pra ir te ver no cemitério. Já estava na faculdade quando isso aconteceu.
Mas não se assuste com o tom melancólico desse post. A imagem que eu tenho de você é de alegria. De quando eu, mesmo grande, sentava em seu colo na poltrona da sala, e te chamava de gordão. Das idas ao sindicato dos petroleiros. Dos passeios pelo Centro. Das fitas K-7 que você gravava pra nossas viagens.
Enfim. Foram 12 intensos anos.
Já já vamos nos despedir de mais um pedaço dessa história, pois a casa do Marapé está vazia. Mais uma parte da minha história que fica pra trás. Não sei se você a viu por essas bandas daí, mas a Valéria se foi em abril. A mãe? Foi guerreira e continua sendo. A baixinha não se rendeu a uma doença grave, mas a gente nem sabe direito em que mundo ela está. A Cristina continua o centro da família, a mais responsável, a mais centrada. O Junior tem a vida dele. Ele também tem um filho, o Cassio, um menino de ouro que será jornalista como a madrinha. É, eu me formei em Jornalismo em 1995. Ah, tem ainda a Mariana, sua neta mais velha, filha da Valéria. Uma moça linda de 22 anos e que hoje vive com a mãe e a Cristina.
Eu sei, foram muitas notícias e você tem muito o que assimilar. Mas é que faz muito tempo que não falamos e eu precisava te contar como anda a minha vida, como andam as coisas. Prometo que serei mais assídua de agora em diante. A chegada dos 40 deixa a gente mais reflexivo e faz a gente rever conceitos. Não é só com você que estou em falta, pai.
Beijos, te amo