Era uma noite típica de verão e, refrescados pelo vento gelado do ar-condicionado, discutiam os caminhos da humanidade entre uma rodada e outra de Brahma. No tradicional bar do Centro de Santos, resolviam em poucos minutos o futuro da nação. Não era para menos, afinal de contas, entre eles havia um Senador. Em seu lugar marcado à mesa do meio, dava opiniões, indicava soluções, fazia discursos e saía satisfeito, na condição de político respeitado. Encenava tão bem seu papel, que a moça com sotaque, recém-integrada ao grupo, acreditou estar diante de um autêntico representante do Senado Federal. Meio sem jeito, chegou em seu ouvido pedindo conselhos de como ingressar na vida pública. Tinha grandes pretensões, queria ser nada menos que prefeita de sua cidade.
- Quero tirar os mendingos da rua e colocar na calçada, repetia ela o slogan pra lá de sem graça.
Com seu sarcasmo habitual, sugeriu que ela começasse por baixo, tentando primeiro um cargo na Câmara de Vereadores de seu município.
- Comece devagar, consiga uma boa verba para investir na campanha. E aí você vai ganhando experiência e vira deputada estadual, federal... e depois, quem sabe, prefeita.
Ela ouvia atentamente as considerações do nobre político, que gesticulava e usava palavras capazes de confundir qualquer desavisado.
Em determinada hora da conversa, não se aguentando mais de curiosidade, virou para o senador e, numa quase inocência, perguntou:
- Como é lá?
- Lá onde?, ele devolveu.
- No Senado, em Brasília. Como é lá, o seu trabalho.
- Não querida, não sou senador. É só um apelido, os caras me chamam assim.
- É que eu achei que você fosse senador de verdade, disse ela, em um visível desapontamento .
- Mas eu sou senador. Até que provem o contrário, eu sou. Não é pessoal?
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