terça-feira, 3 de julho de 2018

Comer, Reza, Amar 2

Ontem, saí 40 minutos antes do jogo Brasil x México para o trabalho. Só tinha eu e o vendedor de água, um cara de uns 20 e tantos anos de óculos redondo, no ponto de ônibus. Senti inveja e, naquele momento, queria ser exatamente como ele. Como uma jornalista que trabalha numa revista, escreve sobre coisas caras, lugares badalados, pensa em vender água num ponto de ônibus? Sinal claro de que há algo errado com o que estou fazendo com os meus dias. Passa uma segunda como mais uma segunda. Chego em casa e cozinho como mais uma noite. Tudo absolutamente igual, exceto uma preocupação com a Isa, que tem tido dias ruins do ponto de vista da saúde. Acordo para mais uma terça: estendo roupa, ponho outras pra lavar, varro a cozinha, tomo banho, café, me arrumo. Saio de casa e pego o ônibus e começo a ler meu livro Comer, Rezar, Amar que parece não ter fim, que está difícil, assim como o Gurugita que Liz não consegue fazer direito. Mas aí no capítulo 57, depois de ela ter, finalmente, completar o Gurugita em paz (ele tem 182 cânticos, número de capítulos do livro), entendi por que eu queria tanto ser aquele vendedor de água. Ela falou a respeito de uma meditação muito específica, a Vissipana, em que as pessoas ficavam imóveis e em silêncio. Sem mantras, sem subterfúgios, apenas em seu silêncio. O moço da água nem deve se dar conta, mas ele é controlador do seu silêncio. Fala quando quer, quando precisa. Não posso me dar a esse luxo. Trabalho numa sala com mais de 60 pessoas juntas. As cinco televisões estão nos jogos da Copa. Todo mundo fala, tem opinião, o telefone toca. Mudamos há pouco para um prédio novo, de primeiro mundo que tem até espresso grátis. Mas eu só consigo pensar no vendedor de água.

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