quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Resiliente por natureza
Minha mãe foi uma mulher incrível. Parou os estudos qdo a mãe dela morreu pra cuidar do pai, meu avô Juvenal, que não conheci, mas de quem ela herdou os olhos verdes. Aos 11 anos pegava o trem em Ricardo de Albuquerque, subúrbio do Rio, pra levar comida pra ele. Também, tempero igual ao dela não existia. E a carne enroladinha (bife à rolê) com o nhoque que sinto o gosto até hoje? Meu avô escolheu os melhores nomes para as filhas: Lia (a mais velha), Lilia (minha tia amada) e Lilian (minha mãe). Veio o José depois. Mas minha mãe não era desse planeta. Nunca vi minha mãe gritando, brigando... Ela era resiliente muito antes da gente saber o que era isso. Teve seus momentos ruins mas foi buscar ajuda pra se entender e conheceu o N/A (neuróticos anônimos). Casou com o primeiro amor e o perdeu muito cedo, qdo ela tinha só 50 anos. Teve amigas que a ajudaram tanto: Doralice, Azul e Estrela (e esse dois nomes? Os melhores nomes
️), Dirce (ela era uma fineza, já usava os cabelos brancos), Dulce e Ivone (essas duas eram as mais malucas kkk), tia Ruth, tia Marli... Elas eram tão lindas juntas. Depois que meu pai morreu, ela ficou um ano sem passar batom. Mas um dia tudo mudou e ela foi fazer faculdade da terceira idade, virou voluntária com os amigos da classe no Lar Vicentino (um abrigo de idosos e durante anos fizeram bingos, passeios), foi passar o Carnaval na Sapucaí no Rio no meu aniversário de 21 anos e encheu a geladeira e o freezer de cerveja e salgadinhos pra eu chamar meu amigos e comemorar. A gente ia pro teatro, pra shows, ia comer cachorro quente no recém-aberto Carrefour. E mesmo eu, o demônio em forma de filha, ela nunca falou alto comigo e só se alterava em casos extremos. Minha mãe tinha uma sabedoria da vida que era inacreditável. Eu sou caçula e, qdo me vi adulta, ela já tava velhinha. E com a voz fininha, com sua mente contemporânea, ela foi uma mulher foda. E o gosto musical? O som na cozinha me acompanhou por uma vida: Jobim, Vinícius, Ivan Lins, família Caymmi, Belchior... Só não gostava do Taiguara e falava que ele era muito depressivo e a gente ria. E o requinte natural que ela tinha mesmo sendo uma menina pobrinha do subúrbio? Minha mãe era educada, muito educada e isso é o que tento copiar, mesmo com essa minha loucura toda. Sem nem saber, perdeu a filha mais velha, a Valéria, e o único menino que deu à luz e que fez meu pai tão feliz por ter um filho Júnior (Walber) no meio de tanta mulher. Hoje, somos Cristina e eu, a irmã mais ajuizada e que cuida da minha mãe. Mas isso é assunto pra outra história. Dona Lilian resiste a uma doença grave e nos também, de alguma forma. Que saudade da sua serenidade, mãe!
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